sexta-feira, 2 de abril de 2010

Rainha de Gelo*


Hoje estava no meu computador. Chovia a cântaros e não me apetecia fazer nada, estava somente a divagar um pouco... Ouvi um ligeiro sibilo e fiquei alerta. Que é este som? De sibilo foi passando a sussurro e de sussurro a melodia; uma melodia enternecedora, bela. Dei por mim à procura, de um jeito desconcertante admito, da tal melodia. Uma voz entrava pelos meus sentidos e, qual aroma divinal, ia-se afogando no meu coração, espalhando-se pelo meu corpo. Uma voz, de uma divindade suponho eu, cantava a tal melodia que me provocava sonhos, devaneios e, simultaneamente, me impelia a fugir e a querer voar. Subitamente percebi. A melodia bela, a qual estava eu a apreciar, era um pedido de ajuda, de socorro.
Ela vem com o seu ar imperador, caminhando sobre pedaços de gelo ao teu encontro. Beleza pura, paixão, pensas tu; Presa, amante, pensa ela. Olha, vê, observa-te, com os seus olhos doces semelhantes a pedras cristalinas. Amor à primeira vista, pensas tu; pobre destino, pensa ela. Foge, foge enquanto é tempo! Caminha na tua direcção, andar confiante, olhar cativante, como quem caminha sobre o mais fino tecido com a certeza de que foi propositadamente desenhado para ela. O ambiente começa a ficar gélido, de cortar a respiração; sentes o sangue a ficar azul e as tuas veias e artérias a congelar, surgindo no ar pequenos cristais. Mas não importa, porque encontraste (pensas tu) o amor da tua vida. Ela sorri, com certeza adivinhando em que estarias tu a pensar. Aproxima-se de ti, sensível, comparável a uma rosa aprisionada numa cúpula milhões de anos atrás, talvez até curiosa, desprotegida. Trespassa-te a alma apenas com um olhar. Mal tu sabes que ela é a Rainha de gelo. Sorri, um sorriso demonstrando as suas capacidades e, antes da tua reacção beija-te. Ó anjo fingido, como pude eu não ver as tuas verdadeiras intenções? Acreditar em ti foi de entre todos o meu maior erro. Um beijo, pensas tu; a morte, pensa ela. Não existe escapatória, não existe misericórdia. Suga-te a vida, essa força vital, qual sereia encantada, congratulando-se do seu inferno glacial. Ouves uma canção de adeus, compreendes agora o teu destino? Devias ter fugido enquanto era tempo...
Enfurecida com tal história fecho o computador, desligo-o; e contudo a melodia não pára! Ó pobre cruel, a quem te tentas comparar?? Entendi então, a música não vinha do computador, mas sim do coração.

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